Pilotos da 99Moto serão monitorados por telemetria

Pilotos da 99Moto serão monitorados por telemetria | Paulo Pinto/Agência Brasil

O asfalto quente do Rio de Janeiro prepara-se para receber um novo protagonista na segurança viária, por meio dos motociclistas da plataforma 99Moto: a telemetria. Eles serão os primeiros do país a receber um relatório detalhado de sua performance na direção. O sistema, programado para estrear no último trimestre de 2025, promete gerar um raio-X completo dos hábitos de direção.

A ferramenta surge de um acordo firmado em maio entre a empresa e a Prefeitura do Rio. O pacto estabelece o compartilhamento de dados com a CET-Rio. O objetivo final é aprimorar o planejamento urbano diante da explosão no uso de motocicletas na capital fluminense.

Sensores inteligentes agora identificam frenagens bruscas, curvas perigosas e excessos de velocidade. Posteriormente, o sistema atribui uma pontuação a cada condutor. Reincidências em infrações graves poderão resultar no bloqueio do profissional na plataforma, conforme anunciou o diretor de negócios da 99, Leandro Abecassis, em coletiva.

O executivo enfatizou que a meta principal é educar, e não punir.

“A ideia não é tirar a forma de ganha-pão do trabalhador”, declarou Abecassis. “Mas a gente precisa que os acidentes não aconteçam”, completou.

Como a telemetria vai funcionar na 99Moto

 

Esta tecnologia substitui um modelo anterior, mais dependente de denúncias de passageiros. A empresa matriz chinesa, DiDi Chuxing, já utiliza a telemetria há cinco anos. No Brasil, o desenvolvimento contou com uma parceria técnica do Instituto Mauá de Tecnologia.

O compartilhamento de dados com a CET-Rio obedecerá estritamente à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A medida responde a um crescimento vertiginoso: a frota de motos na cidade saltou de 305 mil para 462 mil entre 2018 e 2025, um aumento superior a 50%.

As consequências dessa frota expansionista ecoam nos corredores da saúde pública. Unidades de urgência da rede municipal atenderam 14.497 vítimas de acidentes com moto apenas no primeiro semestre de 2025.

Um estudo do Instituto Cordial, encomendado pela plataforma, revela uma dualidade. A proporção de sinistros leves por milhão de viagens supera a média nacional. Contudo, acidentes graves e fatais ocorrem com frequência 12 vezes menor nas corridas monitoradas pelo app.

Especialistas apontam o excesso de velocidade como o vilão central. Dados da Federação Mundial do Transporte ilustram a brutalidade dos números: um atropelamento a 70 km/h tem quase 100% de chance de ser fatal.

“Impopularidade da segurança viária”

A professora Marina Baltar, da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), defende a revisão urgente dos limites de velocidade. Ela reconhece, no entanto, a resistência popular e política perante medidas impopulares. A Prefeitura do Rio chegou a anunciar um limite de 60 km/h para motos, mas recuou em maio.

“Tecnicamente, a gente sabe a importância, mas os moradores têm resistência. Então, muitas vezes, a gente vê uma resistência [dos agentes públicos] pela impopularidade que a questão da segurança viária traz. A gente precisa quebrar essa barreira e mostrar para a população que é um ganho. A gente só conseguiu colocar cinto de segurança nas pessoas depois de uma batalha muito grande”, defende.

Acidentes de trânsito: números hospitalares falam alto

André Drummond, diretor da CET-Rio, argumenta que a geografia da cidade impõe desafios.

“No imaginário do cidadão comum, diminuir a velocidade é aumentar o tempo de deslocamento”, pondera. A empresa municipal trabalha agora num mapa de velocidade para padronizar as vias.

O alerta, sobretudo vem dos hospitais. O ortopedista Marcos Musafir, da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), por exemplo, detalha que mesmo acidentes leves podem causar lesões de detecção tardia. Em contrapartida, a entidade lançará a campanha “Na Moto, Na Moral” em 2025, classificando a situação como um grave problema de saúde pública.

“Esse é um problema sério de saúde pública e nós ortopedistas temos compromisso com a sociedade em ajudar a encontrar caminhos para reverter”.

Por fim, na grande maioria dos casos, o cabe ao Sistema Único de Saúde o custeio de vários atendimentos de trauma e terapia de alta complexidade, que tem como causa acidentes. Uma conta, em resumo, paga pela sociedade, até mesmo por quem não anda de motocicleta. Por outro lado, faltam especialistas para outros tipos de atendimentos, até pela urgência no consumo de bolsas de sangue.

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